Mobilidade e jornalismo são indissociáveis. E isso nada tem a ver com qo surgimento da internet, com redes sociais e mídias digitais. O jornalismo, desde o seu primórdio, sempre esteve associado a mobilidade de informações, promovendo “fluxo, troca, deslocamento, desenraizamento e desterritorializações” (LEMOS, André. 2007).

A tríade jornal impresso, televisão e rádio irá constituir o que Lemos (2007), irá chamar de mídias de função massiva, nas quais o sujeito pode escolher como e que tipo de informação recebe, mas não há possibilidade de diálogo, nem de emissão e circulação da informação.

Com o surgimento das redes telemáticas no final do século passado, começou um processo de hegemonia dessas redes que, encontra agora, o seu ápice. Em seu texto “Cidade e mobilidade. Telefones celulares, funções pós-massivas e territórios informacionais”, Lemos irá definir as mídias digitais, redes sociais e demais elementos que compõem as redes telemáticas, como meios de função pós-massiva, nos quais “qualquer um pode produzir informação, liberando o pólo da emissão, sem necessariamente haver empresas e conglomerados econômicos por trás”.

O celular e a tecnologia móvel também mudou o jornalismo e, através disso, a forma com que as pessoas vêem a cidade. Com notícias cada vez mais atuais e coberturas em tempo real, a forma de fazer jornalismo ficou cada vez mais imediata através da inserção da tecnologia móvel e da criação do jornalismo digital. A compreensão da cidade, a partir disso, se tornou outra. Informações importantes e que precisam ser imediatas passaram a ser encontradas facilmente nos sites e aplicativos. O jornalismo se tornou imediato e a informação sobre a cidade também.

O jornalismo irá se integrar a essas redes através do jornalismo digital, ou seja, o leitor poderá assinar o jornal e ter acesso a ele através da internet, podendo lê-lo em qualquer lugar, sem precisar andar por aí com o jornal debaixo do braço.

Os jornais também desenvolveram sites onde algumas notícias podem ser vistas de maneira gratuita: como é o caso com correio24horas.com.br, atarde.uol.com.br, folha.uol.com.br e estadao.com.br. Isso sem falar nos portais de notícia que são exclusivamente online como o Bahia Notícias e Bocão News.

Tanto para os sites de jornais impressos, como para os portais online, as redes sociais e as versões mobile se provam como um fator decisivo para o aumento do número de acessos. Uma recente pesquisa feita pelo Correio, mostrou que 51% dos acessos ao site chegam através de redes sociais, sendo boa parte acessados pelo celular. A pesquisa ainda mostrou que, desses 51%, 20% dos acessos vem via Whats App.

Outro exemplo do uso das redes e das versões mobile é o jornal Estadão. Eles enviam para os leitores cadastrados três boletins de notícia por dia, via Whats App, um pela manhã, outro ao meio dia, e mais um a noite. Esse é um serviço gratuito. Nos dias com notícias de grande repercussão, como o recente impeachment no Brasil ou os inúmeros atentados na Europa, os leitores ainda recebem um boletim a mais sobre esta notícia.

Hoje, mídias massivas e pós-massivas convivem no mesmo espaço e, de acordo com Lemos, suas funções vão se interligar. Voltando aos exemplos dos sites de jornais que falamos acima, os portais online dos jornais Correio*, A Tarde, Folha de S. Paulo e Estadão desempenham funções massivas, afinal nada mais são do que suas versões impressas transmitidas para uma rede telemática.

Dessa mesma forma, a TV a cabo, rádios comunitárias e fanzines exercem funções pós massivas, voltados para um nicho específico. Em seu texto, Lemos afirma que,

(…) a internet é uma ambiente midiático onde existem funções massivas (a TV pela Web, os grandes portais ou máquinas de busca) e pós-massivas (blogs, wikis, podcasts). A TV tem funções de massa (TV aberta) e pós-massiva, ou de nicho (como os canais pagos).

 

Redes móveis x Cidade

O uso de meios móveis para acessar a internet e a criação de tecnologias sem fio fez com que a necessidade de estar “preso” a lugares passasse a não ser mais obrigatório no acesso a internet- apesar da necessidade de carregar o aparelho, em que já se foi criado a alternativa de carregadores portáteis. Essa nova forma de se conectar, de acordo com Lemos, “permite uma forma diferente de compreender, dar sentido e criar vivência no espaço das cidades contemporâneas”. Os aparelhos móveis, como celulares, tablets, laptops, passam a redefinir os espaços urbanos. Um exemplo claro dessa mudança é o novo jogo Pokemon Go, que redefiniu a cidade ao, através da realidade virtual, fazer com que os jogadores tivessem que transpassar por ela para capturar pokemons e ressignificar pontos específicos da cidade, através dos “pokestops” e “ginásios” que foram colocados até em lugares inusitados, como igrejas.

A nova forma de utilizar o telefone, que era fixo, modificou a forma com que muitas pessoas – que tem a possibilidade de utilizar o celular nas ruas – andam, vivem e vêem a cidade. Um exemplo prático é a “via para quem não larga o celular” que foi criada na China em 2014. São calçadas que têm faixas exclusivas para pedestres que estão interagindo com seus smartphones.

http://g1.globo.com/planeta-bizarro/noticia/2014/09/cidade-chinesa-cria-faixa-exclusiva-para-quem-caminha-usando-celular.html

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Um outro exemplo é a forma com que a rede wi-fi influencia as pessoas na hora de escolher o destino. Ao escolher o local para sair, algumas pessoas costumam dar preferência a lugares que possuam wi-fi.

A presença da rede acaba modificando a vivência do local, assim como ocorre em cafés, aulas, bares etc. O café se tornou um local para trabalhar, as aulas puderam ficar mais interativas – o que tem uma linha tênue com o uso para “fugir” da aula -, os bares ficaram com menos interações. A questão da preferência pelo wi-fi acaba ficando mais explícita em viagens. Existem pessoas que trabalham com internet e que, por conta disso, não podem se distanciar tanto de uma rede wi-fi – mesmo em viagens. Ir para Fernando de Noronha, por exemplo, pode se tornar um pesadelo para eles, tendo em vista que só em determinados pontos da ilha se tem acesso a internet e muita das vezes nem mesmo o 3G/4G pegam.  Dessa forma, o wi-fi acaba mudando a forma como convivemos e nos relacionamos com a cidade.
http://www.nit.pt/article/07-19-2016-estudo-os-portugueses-adoram-hoteis-com-boas-ligacoes-wifi

Bibliografia:

Lemos, A. Cidade e mobilidade. Telefones celulares, funções pós-massivas e territórios informacionais. MATRIZes, v. 1, n. 1, 2007. Disponível em:http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/Media1AndreLemos.pdf

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