A vigilância e a produção da notícia sob medida

O atual público do jornalismo é mais autônomo. Enquanto antigamente esse público tinha que adequar sua rotina para o consumo das notícias, atualmente eles nem ao menos dependem de um veículo específico para se informar. Por esse motivo, as empresas de comunicação estudam formas de inovação online para que o número de seus leitores aumente cada vez mais, e para que haja uma maior fidelização à este veículo.

Para que ocorra o estudo do seu público e, com isso, o desenvolvimento de um produto que seja de seu interesse, inúmeras corporações coletam e categorizam os rastros que deixamos na web – que são vestígios de uma ação efetuada através de sites, aplicativos, e até nas pesquisas e cliques online – , constituindo os perfis com nossos interesses, hábitos e opiniões, sendo fonte valiosa de pesquisa nas ciências humanas e sociais. “Além do marketing e da publicidade direcionada, o monitoramento de rastros pessoais na internet é de interesse comum a diferentes domínios: segurança, entretenimento, saúde […]”, como afirma a professora de Comunicação e Cultura, Fernanda Bruno. O jornalismo também se apropriou dessa prática numa tentativa de “escrever aquilo que o povo quer saber”.

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Com o desenvolvimento dessa técnica de profiling e de mineração de dados disponíveis nesse rastro pessoal digital, a professora ainda afirma que pode ocorrer o desenvolvimento das ciências humanas. De acordo com ela,

Os autores apontam […] ao menos duas grandes oportunidades para as ciências humanas e sociais. A primeira concerne a um ganho quantitativo. Estas ciências contam hoje com uma rica e inédita fonte de dados, outrora de difícil acesso. Mas não se trata apenas de um maior volume de dados disponíveis, mas da possibilidade de renovar a leitura mesma dos processos sociais.

A ideia seria pensar nessa coleta de dados para um estudo sociológico, e também de interesses. Descobrir do que o público gosta é a melhor forma de mantê-lo fidelizado, já que a partir desse estudo já é possível produzir um conteúdo que seja de seu agrado.

Quem sabe por que as pessoas fazem o que fazem? O ponto é que eles fazem isso, e podemos acompanhar e medir com fidelidade sem precedentes. Com dados suficientes, os números falam por si.

A análise dessa “linguagem corporal online” é capaz de definir nossos interesses, logo, é uma das técnicas utilizadas pelo jornalismo digital para analisar quais são as notícias que se tornam mais populares nos seus veículos, por qual motivo, e em qual determinado público.

Mas não é preciso se aprofundar tanto nesses dados para descobrir o que é mais valorizado em um site de notícias. Analisando a quantidade de comentários, curtidas, e, principalmente, de cliques, já é possível desenhar um perfil dos leitores de um veículo, e quais seriam as notícias que eles têm interesse em saber.

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Porém, as particularidades desses rastros digitais não devem ser entendidas como características exclusivas para a análise de um público para a produção sob medida de notícias no meio digital. Claro que com o desenvolvimento da tecnologia e a maior popularização do jornalismo online esses perfis do público se tornaram muito mais fáceis de serem traçados, mas essa análise já acontecia no jornalismo impresso. O que mudou foi o veículo, a forma e a intensificação.

Falta privacidade na vigilância

A relação jornalismo – vigilância também afeta de forma negativa o digital.  O relatório intitutuladoWith Liberty to Monitor All: How Large Scale US Surveillance is Harming Journalism, Law, and American Democracy(Com liberdade para monitorar tudo: Como a vigilância em larga escala nos Estados Unidos está prejudicando o jornalismo, a lei e a democracia norte-americana)”, que foca na disseminação de informações sobre as atividades do governo, foi divulgado pelas entidades norte americanas Human Rights Watch e a American Civil Liberties Union (ACLU) e aponta que os jornalistas entrevistados estão percebendo que a vigilância está prejudicando sua capacidade de noticiar assuntos de grande interesse público.

Com o aumento no monitoramento, o receio por vazamento de informações e a possível repressão por parte do governo têm intimidado as fontes, que se tornam mais resistentes em discutir questões de interesse público, mesmo quando os assuntos não são de natureza confidencial.  Ainda no relatório, muitos jornalistas explicaram que estão adotando medidas complexas em meio a um ambiente de grande incerteza, com o objetivo de esconder vestígios de sua interação com os entrevistados. Entre as técnicas, está o uso de criptografia e de computadores isolados de redes não seguras, como a internet. Se comunicar com as fontes usando telefones descartáveis também é um dos artifícios utilizados. Como nem tudo são flores, estes métodos costumam atrasar os repórteres na busca por entrevistados, que por sua vez, estão cada vez mais reticentes em colaborar, diminuindo a quantidade de informações obtidas.

O relatório conclui afirmando que os jornalistas têm manifestado preocupação de que, em lugar de serem tratados como fiscais da atuação governamental e facilitadores de um debate democrático saudável, sejam vistos como suspeitos por desempenharem seu papel.

De um modo geral, muitas pessoas têm trabalhado para diminuir a oscilação entre a privacidade e o panóptico citado por Focault (2013), promovendo o desenvolvimento de ferramentas contra a vigilância e recomendações para os jornalistas.

Trazendo a discussão para o Brasil, o Estadão é o primeiro exemplo. O jornal lançou uma campanha que lista os 10 acontecimentos de maior relevância na política nos últimos tempos. O lettering ressalta a máxima da campanha, “bom jornalismo é vigilância”, com a intenção de passar a mensagem de que não importa quem esteja no poder, a imprensa buscará as informações. O veículo, no entanto, faz questão de ressaltar o uso da criptografia e o anonimato de todas as fontes colaboradoras do especial.

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Capa do Jornal Estadão em comemoração do especial

Bibliografia:

Bruno, F.. Rastrear, classificar, performar. Ciência e Cultura, v. 68, p. 34-39, 2016. Disponível em: <http://cienciaecultura.bvs.br/pdf/cic/v68n1/v68n1a12.pdf>
Bruno, F. Rastros digitais sob a perspectiva da teoria ator-rede. Revista
Famecos, v. 19, n. 3,p. 681, 2012. Disponível em <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article
Deleuze, G. Post-Scriptum sobre as sociedades de controle. In:_____. Conversações: 1972
-1990, Editora 34, pp. 219-226, 1992. Disponível em: <http://www.port

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