Um dos conceitos mais difundidos no estudo da Comunicação é o de que a imprensa deve exercer o papel de “Watchdog”, o cão de guarda da sociedade, sendo uma instituição que vigie a máquina pública. O instinto protetor dos cães com seus donos tornam-os importantes defensores; o jornalista, da mesma forma, deveria ser o verdadeiro cão de guarda da sociedade, perante as injustiças, corrupção e escândalos. Com o avanço das tecnologias, a cobertura do jornalismo se reconfigura, passando a utilizar diversos registros captados com câmeras de vigilância, câmeras, celulares, tablets, entre outros. Os “flagrantes” são cada vez mais frequentes no jornalismo. Para Foucault (2013) “O que se compreende por vigilância envolve o mecanismo fundamentado em um princípio de visibilidade, no qual se propaga um olhar que visa disciplinar o indivíduo por meio do monitoramento sistemático”.

Foucault, em “Vigiar e Punir”, fala sobre a sociedade disciplinar, estabelecida na época da peste. Havia um cuidado extremamente rígido para que a doença não se instalasse na comunidade, o que fazia com que todos vivessem em um eterno estado de vigilância. Era necessário ter disciplina para falar com o síndico e entregá-lo a chave na hora certa, assim como para fechar todas as portas, janelas e tapar buracos que existem, de forma que não houvesse, ou ao menos diminuísse, a chance de se contaminar. Para ele, “a vigilância opera na alimentação das formas de poder disciplinar, de modo a assegurar a dominação de certos grupos e excluir o acesso de outros ao poder”.

Como Deleuze diz, “encontramo-nos numa crise generalizada de todos os meios de confinamento, prisão, hospital, fábrica, escola, família”. Trata-se da sociedade disciplinar sendo substituída pela sociedade de controle. Foucault reconhecesse o controle como nosso futuro próximo. Segundo Deleuze, “nas sociedades de disciplina não se parava de recomeçar (da escola à caserna, da caserna à fábrica), enquanto nas sociedades de controle nunca se termina nada, a empresa, a formação, o serviço sendo os estados metaestáveis e coexistentes de uma mesma modulação, como que de um deformador universal”. Essa questão do controle assemelha-se ao conceito de “Watchdog”, que de certa forma controla o que deve ser protegido da sociedade ou não.

Jeremy Bentham, filósofo inglês do século XVIII, desenvolveu um sistema (através de um projeto de arquitetura) de observação aos detentos, de forma a garantir o comportamento adequado dos mesmos. Tal sistema é conhecido em muitos ramos do conhecimento, incluindo a psicologia, que que comprova que as pessoas se auto vigiam para não ter comportamentos “suspeitos” ou “exagerados” quando se submetem a alguma observação. é o que observamos hoje com câmeras em supermercados, por exemplo. Estão ali para vigiar e inibir as pessoas de roubarem algum produto. A teoria “watchdog” trata exatamente sobre isso. O jornalismo como panóptico do interesse público, sempre vigiando o que está acontecendo para informar a sociedade.

Através da inserção dos smartphones na vida cotidiana, a vigilância passou a ter uma ideia de onipresente e onisciente na vida diária; a forma de ver e de ser visto se tornou mais complexa com a emergência dessas novas tecnologias. A naturalização das câmeras de segurança e dos celulares a todo o tempo prontos para capturar uma cena, acaba normalizando o flagra. Esta onipresença faz com que a vigia seja ainda mais constante e em momentos completamente inesperados. Tudo pode acabar na internet, em algum site de jornal.

 

Caso Ryan Lochte

Um caso famoso recente foi o de Ryan Lochte e três outros atletas que haviam afirmado para a polícia que tinham sido assaltados por policiais disfarçados. O caso começou a ser questionado após câmeras de seguranças captarem os atletas chegando na vila olímpica com todos os bens que eles afirmaram ter sido roubado. A farsa ficou comprovada após um vídeo da câmera de vigilância do posto ser revelado. Os atletas só assumiram que haviam brigado em um posto de gasolina (entenda o caso aqui) após a divulgação das imagens.

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 Nadadores chegam na vila com bens

 

Chelsea Manning e Snowden

Um caso bastante conhecido foi o do soldado Bradley Manning (hoje Chelsea Manning), que vazou documentos secretos ao WikiLeaks. Além de 700 mil arquivos secretos do governo dos Estados Unidos, Chelsea vazou comunicações diplomáticas e vídeos de confrontos (entenda aqui). Um vídeo de um helicóptero na Guerra do Iraque mostrava soldados dos EUA matando civis iraquianos e dois jornalistas da Reuters que chocou de uma forma mais forte a sociedade. Outro caso bastante importante foi o de Edward Snowden (entenda aqui), que era agente da CIA e prestador de serviços para a NSA, e vazou documentos ultrasecretos de espionagem dos EUA. A jornalista Glenn Greenwald, jornalista do caso e a Laura Poitras, documentarista envolvida no caso foram taxadas de terroristas após divulgar os documentos que eram considerados confidenciais. O caso coloca um alerta sobre a vigilância e o papel do Estado. Até que ponto é papel do jornalista divulgar? A jornalista errou em fazer a matéria?

O livro de George Orwell, 1984, traz a discussão sobre vigilância. Winston Smith, que vive em um sistema ditatorial, trabalha no Ministério da Verdade, tem a função de falsificar documentos. Ele a todo o momento pensa que o mundo poderia ser melhor se o povo se rebelasse contra o Partido. Por ser um regime ditatorial, Winston não pode compartilhar seus pensamentos. Na história, o Estado (Partido) utiliza a teletela, tipo de televisões que permitem ver e ser visto, e que controlam e vigiam as pessoas. Pode-se fazer uma analogia com o caso de Winston Smith com o de Snowden, que apesar de não viver em um regime ditatorial, tinha informações confidenciais do governo vigente e não concordava com algumas atitudes (espionagem irregular) do governo.

 

REFERÊNCIAS

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2013

Orwell, G. 1984. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005. (capítulo 1)

Foucault, M. O panoptismo. In: _____. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópoles: Vozes, p. 186 – 214, 2009. (Terceira parte: Capítulo III)

Deleuze, G. Post – Scriptum sobre as sociedades de controle. In: _____. Conversações: 1972 – 1990, Editora 34, pp. 219 – 226, 1992.

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