Historicamente, início de século sempre é um período de tensões e conflitos que levam a profundas mudanças nas sociedades. Em menos de vinte anos, guerras acabaram, guerras começaram, regimes caíram e atentados mataram milhões de pessoas. Tudo isso ocupa boa parte dos noticiários; seja na TV, no impresso, no rádio ou na internet.

Há pouco mais de 100 anos, Euclydes da Cunha foi cobrir a Guerra de Canudos e mandava seus textos via cartas, que era o meio de comunicação mais rápido e comum na época. A matéria era publicada no mínimo três dias após o fato ter ocorrido. Na era digital, é quase impossível imaginar esta situação. Dentro do jornalismo, a transmissão instantânea dos fatos, e a rapidez do fluxo comunicacional entre o repórter e a equipe da redação, são fatores cruciais para uma boa cobertura.

Se um repórter da F. de São Paulo, por exemplo, esta cobrindo a guerra da Síria, ele tem a possibilidade de mandar um Whats App para o editor chefe e discutir a pauta com ele. Da Síria, ele pode escrever seu texto e postar na mesma hora no site do jornal. Depois, ele ainda pode abrir a página do Facebook da F. de São Paulo e postar o vídeo de um bombardeio que ele acabou de gravar.

A cobertura de eventos como este, entretanto, não é exclusiva a jornalistas. Qualquer pessoa com um smartphone e acesso a internet consegue tirar uma foto ou gravar um vídeo e joga-lo na rede para todo mundo ver.

No texto Things (and people) are the tools of revolution (LEMOS, André. 2011), o autor faz uma análise sobre como as redes sociais contribuíram para as ondas revolucionárias que ocorreram no norte da África e Oriente Médio, em 2011. A chamada Primavera Árabe. O texto não aborda a atuação de jornalistas, mas sim a forma como as pessoas se utilizaram de redes como Facebook, Twitter e blogs para disseminar os ideários da revolução e levar milhões às ruas.

Muitos irão defender a ideia de que as redes fizeram a revolução, ou seja, que elas tem esse caráter revolucionário e, sem redes sociais, as pessoas não teriam ido às ruas. Outros irão dizer que as pessoas são os agentes da ação, e que a internet foi apenas uma ferramenta, um meio.

De fato, outras revoluções ocorreram no mundo sem redes sociais, porém, será que a Primavera Árabe teria sido como foi, e teria tido a repercussão que teve sem essas redes?

Lemos defende a não polarização entre os sujeitos. Não foram nem só as pessoas e nem só a internet. Foram ambas. “Facebook, Twitter, blogs, telefones celulares (…) fizeram as revoluções ao entrarem em  associação com  outros “actantes” [atores] (pessoas, discursos, dados sociais)”.

O trabalho dos jornalistas também é formado por essa associação. Em outras épocas, cartas e máquinas de escrever nos ajudaram (como no exemplo de Euclydes da Cunha). Agora, a internet é o novo meio. Não deixaríamos de fazer as coberturas sem ela, mas, sem dúvida, seria bem diferente. Lemos traz essa comparação não apenas com as redes sociais, mas também com outros atores (humanos e não humanos) que constituem a profissão de jornalista.

Não  seria a ação do “jornalismo” fruto de  um  conjunto de  associações entre actantes humanos e  não­ humanos, sem  que  haja a  priori um que seja o sujeito da “ação”, outro a “ferramenta” e um  outro o  “meio”? Como  agiria o  “jornalismo” sem  os editores, os repórteres, as agências de notícias, as indústrias culturais, os professores e escolas de comunicação, as empresas publicitárias, os distribuidores, o jornaleiro, o papel jornal, a banca de jornal, os computadores, os telefones, o celular,  o  fax  e…  a  internet e  suas expressões como o  Twitter  e  a  Web?

Para o autor não é necessário a divisão entre atores responsáveis pela ação, aqueles que são as ferramentas e os que são os meios. Tudo irá depender do contexto em que se está inserido. Facebook pode ser um espaço para postar selfies, como também um espaço para mobilizar milhões de pessoas a derrubarem um governo ditador.  

gipeeeeehy.gif

Jornalismo hacker

O jornalismo é a principal ligação comunicacional entre o governo e o povo. Uma significativa parcela da sociedade considera verdade absoluta tudo o que ele noticia. Vivemos a era em que os homens, além de controlar as máquinas,  passaram a ser também, conteúdo que elas abrigam. É impossível que o nosso cérebro acumule todas as informações do nosso dia-a-dia, então vivemos procuramos os HDs externos, armazenagem em nuvem, compartilhamento via internet e todas as possibilidades do computador ou sistemas básicos de gerenciamento de conteúdo online.

A popularização da informação, responsável por emancipar o conhecimento, e a ruptura total da propriedade intelectual, anonimato e privacidade, marcam uma relação paralela entre a memória histórica da civilização e a intenet. Basta estar conectado para ser monitorado. Logo, o maior desafio, tanto para civis quanto para o governo, é tentar manter em sigilo informações confidenciais. Quem controla a internet tem o registro da humanidade em mãos. Uma pessoa do outro lado do mundo poderá ter acesso às informações pessoais de cada um que navega na rede e grande parte dessas informações vai parar em bancos de dados.

O hacktivismo contribui para o jornalismo desde a busca da informação, até a necessidade de difundir estes dados. Além de promover a democratização política, estas ações mudam a mídia, estruturalmente falando, uma vez que blogs, páginas em redes sociais e outros subprodutos do jornalismo digital detenham acesso aos mesmos documentos que os veículos tradicionais de notícia.  Por isso o envio de conteúdo da internet para a televisão, rádio e jornal é tão importante.

Em “A política na Time Line”, Wilson Gomes discorre acerca das discussões sobre o espaço da rede, a definindo como “arena, não meios” (GOMES, W. 2014, p.18). Gomes continua dizendo que mesmo opiniões, interpretações e informações geradas por outros sistemas de produção de conteúdo, como o jornalismo impresso ou a televisão, não circulam pelas redes sociais digitais como se estas fossem apenas meios de coleta e distribuição, entre produtores e consumidores, neutros e indiferentes aos conteúdos que neles trafegam.

A Internet chegou para ficar. Não é uma moda passageira e não haverá retrocesso. Jamais os usuários de e-mail voltarão a escrever cartas e deslocar-se até o correio para postá- las (FERRARI 2003, p.21)

O jornalismo considera a web “como uma nova mídia, que, definitivamente, não substituirá as outras, mas terá o papel de integrar todas em uma só, sem perder a identidade” (MOURA 2002, p.49). Pierre Levy diz que “quando o digital comunica e coloca em um ciclo de retroalimentação processos físicos, econômicos ou industriais anteriormente estanques, suas implicações culturais e sociais devem ser reavaliadas sempre” (LÉVY, 1999, p.25).

Sendo assim, o amplo uso destas conexões comunicacionais devem ser estudadas com o intuito de conceituar e prever as consequências em sociedade deste jornalismo emergente de agora.

 

Bibliografia:

AMADEU, S. Ciberativismo, cultura hacker e o individualismo colaborativo. Revista USP, n.86,p. 28-39, 2010. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/13811/15629>.
FERRARI, Pollyana. Jornalismo Digital. Editora Contexto, 2003.
GOMES, W. A política na time line. Bahia: Edufba, 2014. 329 p.
LEMOS, A. Things (and People) are the Tools of the Revolution. Disponível em: <https://politics.org.br/edicoes/things-and-people-are-tools-revolution>.
LEVY, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 2000.
MOURA, Leonardo. Como escrever na rede: manual de conteúdo e redação para internet. Rio de Janeiro: Record, 2002.

 

Anúncios