Considerada a palavra internacional do ano de 2013 pelo Oxford English Dictionary, a palavra “selfie” representa uma foto tirada de uma pessoa, ou um grupo, e compartilhada na web. O inventor do selfie – ou autorretrato – foi um dos pioneiros da fotografia, Robert Cornelius, em 1839. Após a utilização do termo em um fórum online australiano, esta palavra só começou a ser utilizada de fato a partir de 2012 com a popularização nas redes sociais, se tornando comum nas plataformas principais, inclusive no meio jornalístico.

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“Selfie” capturada por Cornelius em 1839

O uso do termo aumentou 17.000% entre os anos de 2012 e 2013, e na época, o jornal americano “USA Today” afirmou que a escolha capturava perfeitamente o momento de obsessão pelas mídias sociais. Independente de como sejam tiradas, o foco é o compartilhamento, para que o detentor da conta na rede social na qual a foto é publicada relate fatos cotidianos ou acontecimentos relevantes.

De acordo com, Luli Radfahrer,  professor e doutor de Comunicação Digital da ECA da USP

Até a década de 1990, a mídia de massa proporcionava uma fuga da realidade transportando leitores e telespectadores para um universo ficcional de sitcoms, novelas e séries. Depois os reality shows viraram a câmera e a atenção para o indivíduo banal em todo o esplendor de sua boçalidade. Mídias sociais democratizaram o voyeurismo antes reservado a celebridades, tornando-o acessível a todos, o tempo todo.

Ganhando uma dimensão jamais imaginada antes da era das redes digitais, os selfies são julgados como fotografias tiradas apenas para a divulgação do “eu”, sob a óptica da sociedade do entretenimento e do espetáculo, onde os indivíduos apenas “valem” a partir do momento em que se tornam visíveis, como definiu o escritor peruano Mario Vargas Llosa (2013). Mas será que, de fato, é só para isso que servem esses autorretratos?

Muitos desses selfies são tirados apenas para que ocorra uma “saída do anonimato”, como afirma Persichetti. Mas não necessariamente significa que uma notícia não possa estar associada à essa fotografia.

De acordo com a jornalista Simonetta Persichetti, “nascida no meio de uma filosofia positivista, a fotografia se encaixou muito bem na ideia do olhar frio e imparcial tão caro aos pensadores da época: ‘só acredito no que meu olho vê’ “. O selfie não passa longe disso. Além de recriar boa parte da vida cotidiana, ele também passa a ser responsável por dar concretude ao que estamos vendo, concretude essa tanto do imaginário de um sujeito inserido na sociedade ou cultura, ou num certo momento histórico. Essa imagem se torna essencial para a transmissão de certa informação, principalmente em um momento de imediatez de um fato.

Take a journalistic selfie

No jornalismo digital os selfies também viraram ferramenta de alimentação de conteúdo. Dentre as diversas notícias publicadas ao longo do dia nos veículos online, tem se tornado frequente casos em que o selfie virou o próprio tema de discussão.

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Selfie no Oscar de 2014, tema de diversas notícias veiculadas no ano

A exemplo disso foi a crítica e circulação online do selfie de Barack Obama durante o enterro do líder sul-africano Nelson Mandela, em 2013. O autorretrato foi tirado junto com os primeiros-ministros David Cameron, do Reino Unido e Helle Thorning Shmidt, da Dinamarca. Duramente criticado pela mídia mundial, o presidente norte-americano ainda deu brechas para criação de memes nas redes sociais, uma vez que a expressão de sua mulher, Michele Obama, era de alguém furiosa e com ciúmes.

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Selfie registrado no enterro do líder sul-africano

Obama se meteu ainda em outra confusão ao se deixar retratar ao lado do jogador de beisebol do Boston Red Sox, David Ortiz. Outro selfie com bastante repercussão foi o da atriz Ellen De Generes durante a entrega do Oscar. Na verdade, a foto foi feita pelo ator Bradley Cooper e reuniu várias estrelas de Hollywood. Depois do episódio, o Twitter relatou que foram mais de 500 milhões de posts por dia sobre o assunto. Não demorou muito para estar em diferentes plataformas de notícias.

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No Brasil, os selfies viram notícias desde a seção de holofotes até denúncias. Artistas já tiveram suas selfies publicadas para ilustrar notícias cujo a intenção era descrever o que estavam fazendo, com quem e aonde. Dentre outros casos de selfies que circularam no país, estão os de profissionais da saúde que aproveitaram de momentos delicados, como uma cirurgia de algum famoso, para fazer um autorretrato.

Por se tratar de um meio de fácil circulação e compartilhamento, o jornalismo digital é a plataforma mais dinâmica para essas publicações, por assim dizer. Um novo modelo de jornalismo onde a imediatez está presente no processo.

BIBLIOGRAFIA:

Persichetti,S. Dos elfos aos selfies. In: KUNSCH, Dimas; PERSICHETTI, Simonetta (Org). Comunicação: entretenimento e imagem. São Paulo: Editora Plêiade, 2013
Observatório da Imprensa. Disponível em: <http://observatoriodaimprensa.com.br/e-noticias/_ed841_como_e_por_que_tirar_uma_selfie/&gt;. Acesso em 01 de setembro de 2016

UOL. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/vyaestelar/fotografias_tipo_selfie.htm&gt;. Acesso em 02 de setembro de 2015Carta

Capital, sociedade. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-selfie-de-obama-e-o-jornalismo-apressado-1861.html&gt;. Acesso em 02 de setembro de 2016

 

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