“O artífice”, de Richard Sennet assemelha-se em muitos pontos com o primeiro capítulo do livro “Cibercultura, tecnologia e vida social na cultura contemporânea”, de André Lemos. Nele, Lemos discorre sobre as particularidades e características da técnica e da tecnologia, e assim nos apresenta à tekhnè. A técnica se refere às mais diferentes áreas do conhecimento, como cozinha, teatro, esporte, ou até a “objetos, instrumentos e máquinas”. A tekhnè abarca a parte prática das atividades, é um conceito filosófico que foca no fazer humano.

O artífice, por sua vez, se dedica à “arte pela arte”. Ele tem uma natureza prática, assim como a tekhnè. No entanto, o artífice não está preocupado em terminar suas atividades com rapidez ou focar na produção em série, pois a atividade realizada não é apenas um meio para alcançar um fim. Seu comprometimento é com a atividade bem feita, é o empenho pelo empenho.  Ainda que seja dedicado, o artífice encontra obstáculos impostos pela sociedade. O desempenho prático foi e é desprezado em muitos momentos e “o orgulho pelo próprio trabalho, tratado como um luxo”.

Sendo a tecnologia os “objetos técnicos, as máquinas e seus respectivos processos de fabricação”, ela está intimamente ligada como o modo de fazer o jornalismo digital. Este precisa da tecnologia – numa visão do século XXI – para existir e funcionar. A tecnologia usada neste modo de fazer e pensar o jornalismo é a tecnologia dos tablets, iphones, recursos tecnológicos que envolvem a internet, rede essencial para o jornalismo digital. Esses aparatos tecnológicos surgiram na intenção de fazer com que os nosso hábitos não dependessem de um sistema, mas sim que o sistema se adequasse à nossa rotina.

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De acordo com Eric Raymond – no texto de Sennet -, “diante de tantos pares de olhos, qualquer bug é moleza”. Na ocasião ele se referia ao sistema operacional Linux, cujos bugs podem ser solucionados pelos usuários, que se oferecem voluntariamente e doam seu tempo para aperfeiçoá-lo. O mesmo se aplica ao jornalismo digital, onde os leitores fazem parte da rede que atualiza as notícias, mandando fotos, informações e até comentando sobre os erros cometidos pelos jornalistas. Mas a facilidade encontrada nessa troca de ideias somente se tornou possível a partir do desenvolvimento da tecnologia.

O jornalista enquanto artífice

No trabalho jornalístico, as regras de escrita – formatos de pirâmide invertida e muitas outras das técnicas utilizadas para a produção de um bom texto jornalístico – foram estabelecidas e adaptadas por gerações anteriores, e se mantém em constante transformação, para um melhor compartilhamento do código, e também, para melhor captar a atenção dos leitores. A partir do surgimento do jornalismo digital, novas regras tiveram que ser criadas. Um texto mais direto, uma leitura mais leve e uma maior utilização de mídias foram algumas dessas novas regras, em partes pela falta de tempo da sociedade para ler matérias densas, e em partes pelo fato de existirem muitos outros sites de notícias espalhados pela internet, onde se aplica a lei da vida: a sobrevivência dos mais fortes. Nesse caso, dos que tenham uma maior habilidade jornalística. Ou ainda, uma maior técnica.

Considerando este segundo caso, Sennet afirma que

O mundo moderno tem duas receitas para suscitar o desejo de trabalhar bem e com afinco. Uma é o imperativo moral de trabalhar pelo bem da comunidade. A outra recorre à competição: pressupõe que competir com outros estimula o desejo do bom desempenho, prometendo recompensas individuais no lugar da coesão comunitária.

Não é de hoje que a competição entre os jornalistas existe, mas com a ascensão do jornalismo digital essa competição só se intensificou.

Sennet utiliza em seu texto a comparação entre correção e a funcionalidade de acordo com as atitudes de um escritor. A correção seria a volta a cada vírgula para que o texto não tenha nenhum erro, e a funcionalidade seria a entrega do texto no prazo, estejam ou não todas as vírgulas no lugar. Com o jornalismo isso se encaixa como uma luva, e no jornalismo digital essa comparação se torna ainda mais evidente. Por conta da competitividade existente nessa área, e a necessidade da publicação dos “furos”, esses profissionais devem ser funcionalistas em sua profissão, publicar as matérias o quanto antes, e só depois editar seus textos para melhorá-los.

A técnica, então, deixa de ser trabalhada. Com uma maior dificuldade de desenvolver suas habilidades, os jornalistas passam a produzir automaticamente. Quando a prática é organizada como um meio para alcançar um fim predeterminado, a pessoa atingirá a meta mas não irá além, que, no caso da competitividade, faz apenas com que o jornalista queira sempre publicar as matérias antes do concorrente, e não fazê-las se tornarem melhores, que deveria ser o mais importante.

“O capitalismo ocidental sustentou em certos momentos que a competição individual, e não a colaboração, é que mais eficientemente motiva as pessoas a trabalhar bem”. (SENNET, Richard)

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Acredita-se, entretanto, que após muita prática a técnica deixa de ser uma atividade mecânica e as pessoas são capazes de sentir e pensar plenamente o que estão fazendo. O que só promove ainda mais a ideia de que a prática é a melhor forma de fortalecer a técnica.

O uso da tecnologia e o enfraquecimento da técnica

O jornalismo digital é a prova de que pode haver um bom uso da tecnologia sem que a qualidade dos produtos seja perdida. Por mais que os textos tenham encurtado, e a forma de produzi-los seja diferente, eles ainda têm a capacidade de atingir o público da mesma forma. Tudo depende da habilidade do profissional de produzir um bom texto.

O avanço excessivo da tecnologias, entretanto, se torna preocupante ao passo que as máquina passam a efetuar os mesmos papéis que os profissionais, e conseguem fazer o trabalho quase tão bem quanto.

Recentemente, uma nova tecnologia foi testada e provou a sua capacidade de efetuar tarefas de forma parecida a dos seres humanos, mas com uma única diferença: com maior rapidez. Uma empresa de inteligência artificial dos Estados Unidos, a Automated Insights, pioneira no desenvolvimento de softwares capazes de escrever notícias, foram contatadas por uma companhia para fazer a cobertura de um evento esportivo, e noticiar sobre os 142 times da Minor League Baseball.  O software, que utiliza dados de fontes confiáveis, foi capaz de cobrir mais de 10 mil partidas de beisebol. A partir de uma estrutura narrativa básica, a plataforma é capaz de produzir mais de “bilhões” de textos por mês.

Por mais que os textos escritos por essa tecnologia tenham sido bem aceitos pelos leitores, os mesmos afirmam que ainda há muito o que melhorar, já que, como os textos são criados a partir de uma base pré existente e preenchida com dados, o produto ainda é um pouco tedioso. Sem a capacidade de opinar, interpretar e correr atrás de informações de diferentes fontes, o programa apenas recita as informações que recebe. Mas quanto tempo a empresa que desenvolve esse programa irá levar até que o aperfeiçoamento dele se torne, de fato, perfeito?

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Levantado por Sennet no texto

A questão – quero aqui frisar – é mais complicada que a mera oposição mão versus máquina. Os modernos programas de computador podem efetivamente aprender com sua própria experiência de uma forma expansiva, pois os algorítimos são reelaborados através da retroalimentação de dados. O problema, como afirma Victor Weisskopf, é que as pessoas podem acabar permitindo que as máquinas façam esse aprendizado, servindo a pessoa apenas como testemunha passiva e consumidora da competência em expansão, sem participar dela.

Mas isso não necessariamente quer dizer que a instauração das máquinas e sistemas é o que afasta o homem da técnica, muito menos que a relação atual entre homem e máquina não possa produzir uma nova técnica. Esses instrumentos acabam funcionando enquanto um prolongamento do corpo humano. Ao ter seu corpo “prolongado”, o homem faz parte da técnica e a técnica faz parte do homem. Eles continuam a ter uma relação de proximidade e de troca.

 

Bibliografia:

Heidegger, M.A questão da técnica. In:_____.Ensaios e conferências. Vozes, 2002
Lemos, A. Cibercultura, Tecnologia e Vida Social na Cultura Contemporânea. Porto Alegre, Sulina. 2002
Lemos, A. Critica da critica essencialista da cibercultura. Disponível em:

SENNET, R. O artífice. Record, 2004

 

 

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